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Sacudida pela pandemia, pela ausência de turistas e pelo êxodo no seu centro financeiro, a cidade encara a reabertura com enormes incógnitas, mas aprendeu algumas lições. Seus moradores conquistam espaços, aproveitam ruas sem carros e exercem uma nova solidariedade vinculada aos bairros

 

“É que a gente rapidamente se acostuma ao que é bom”, brinca Bachus sobre a calmaria das ruas sem tráfego. Porque neste momento uma das chaves para a cidade – que foi o epicentro da pandemia nos EUA em março de 2020 – será verificar se as agruras e restrições ao longo de mais de um ano terão valido a pena, se a cidade ganhará em habitabilidade, ou se o retorno à normalidade significará mais do mesmo: congestionamento, barulho, inacessibilidade. As ruas cheias de gente passeando ou aproveitando o brunch, de jogos de amarelinha e meninas com sainhas de libélula, ou a dança dos patinetes, sibilantes como serpentes, parecem indicar que os nova-iorquinos não querem recuar. Erwin Figueroa, diretor da Transportation Alternatives, uma organização parcialmente responsável por convencer a prefeitura a aprovar uma lei que torna permanente o programa Open Streets, diz que este momento é crucial. “Não podemos voltar ao de antes, ao excesso de tráfego, com alto índice de acidentes e quase sem alternativas de transporte mais sustentáveis”.

E continua: “É agora que devemos reivindicar o espaço público. Os pedestres dispõem de apenas 24%, que são as calçadas; as ciclovias representam 0,93%, mas se trata também de dar mais opções de transporte aos cidadãos, não só a bicicleta, também meios coletivos eficientes. A mensagem é clara: os motoristas não podem ser os únicos usuários da cidade”. Figueroa argumenta que, nesta metrópole com um milhão de milionários e dezenas de milhares de sem-teto, “décadas de desigualdade forjaram identidades públicas desiguais”.

O exemplo da open street na avenida 34 em Elmhurst (Queens) reflete como a vida dos moradores mudou. Administrada por 150 voluntários, esse calçadão se estende por 26 quarteirões e um amplo boulevard, e é a única que funciona sete dias da semana, das 8h às 20h, com o uso de barreiras portáteis que os voluntários colocam e retiram a cada 12 horas. Rita Wade, voluntária-sênior, diz que a avenida 34 é o exemplo mais relevante de rua aberta, porque está na região com menos áreas verdes da cidade em proporção ao número de habitantes. Também foi um dos epicentros do vírus.

Sessão de Yoga no terraço do The Edge, o mirante mais alto de Manhattan.

Sessão de Yoga no terraço do The Edge, o mirante mais alto de Manhattan. MICHAEL GEORGE / EPS

Hoje, aulas de idiomas e de dança, brincadeiras e corridas infantis e até uma assessoria jurídica gratuita para os moradores afetados por despejos – uma das consequências ruins da pandemia – coexistem na avenida 34, que, diferentemente das demais ruas abertas, não foi destinada aos consumidores – não há bares nem restaurantes –, e sim aos cidadãos.

Nova York é a quintessência do contraste, quando não da contradição: um bairro progressista que pressiona pelo fechamento de um hotel transformado em albergue para indigentes; uma legião de voluntários que cuida com esmero dos jardins, mas trata ao próximo com desdém; lojas de luxo para animais domésticos em frente à qual dormem moradores de rua; o fechamento de uma torre futurista após vários suicídios motivados pela falta de futuro… Um formigueiro frenético, de seres em busca de quimeras ou do ganha-pão, que exige movimento contínuo, como um ciclista para não cair da bicicleta. Por isso, meses atrás causava estupor ver a Times Square sem carros, as calçadas das grandes avenidas de Manhattan sem o exército de funcionários de escritório engolindo sanduíches enquanto caminham apressados, os neons da Broadway apagados, com a poeira se acumulando nos cartazes. O trânsito em todas as suas formas – tráfego, azáfama, turismo – define a cidade e a alimenta ao mesmo tempo em que a consome.

Inna Zelikson vive do fluxo de viajantes na bela estação Grand Central. Dona com sua irmã de uma simpática joalheria numa das galerias comerciais, teve dias em que pensou em jogar a toalha, quando seu negócio era o único aberto naquele espaço. “Antes tínhamos três turnos de funcionários para atender a loja e abríamos todos os dias. A cada dia 750.000 pessoas passavam pela estação, mais de um milhão de turistas por ano. Depois do confinamento, parecia um cemitério. Muitos dias me perguntei o que estava fazendo aqui sozinha, atrás do balcão”. As dificuldades para pagar o aluguel – hoje reduzido a 20% dos 12.000 dólares (104.500 reais) que desembolsava antes da pandemia – já são história diante da atual perspectiva de futuro. “Não sei se a cidade vai ficar melhor ou pior do que antes, mas sim diferente, e demorar até recuperar sua força. Mas sou otimista, não só pela reincorporação das pessoas aos escritórios, mas também pela volta dos turistas. Todo mundo está desejando voltar a Nova York porque é a cidade. O mundo tem os olhos voltados para nós. E nós cumprimos, seguimos as pautas sanitárias, nos vacinamos: nada pode dar errado.”

Apesar de os distritos de Queens e Brooklyn terem sofrido com maior virulência o desafio da covid-19 – caminhões-frigoríficos ainda conservam em um píer do Brooklyn os corpos de 750 vítimas não identificadas –, é Manhattan, e especialmente as áreas do Midtown e Lower Manhattan, epicentro financeiro, que mostra as cicatrizes mais visíveis: uma fileira de pontos comerciais para alugar e milhares de escritórios vazios. O Hudson Yards, maior intervenção urbanística feita com capital privado, chegou à beira da falência. Nem sequer a sofisticada imagem de iogues madrugadores se esticando como gatos na cobertura do The Edge, um dos mirantes da cidade, consegue ocultar a ameaça de ruína que se abate sobre a carapaça mais luxuosa de Nova York, tão aparente que pode levar a crer que tudo é esplendor e luxo, e não a sujeira e os ratos que também coexistem a alguns metros.

Os preços dos escritórios desabaram em Manhattan, uma ilha que dependia vitalmente de 1,6 milhão de transeuntes por dia, e nunca houve tanto espaço disponível: 16,4%, bem mais do que depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 ou da Grande Recessão de 2008. A transformação será evidente: se o teletrabalho se consolidar como opção prioritária, muitas colmeias de aço e vidro continuarão desocupadas. Kenneth T. Jackson, historiador da cidade e professor emérito da Universidade Columbia, especula por telefone que “a tendência do teletrabalho continuará, mas não tão forte, porque somos seres sociais e necessitamos uns dos outros. É provável que um grande número de escritórios vagos não tenha como ser alugado em três ou quatro anos, mas acabará sendo; pode ser que parte se destine a uso residencial, e que Manhattan custe um pouco mais a se recuperar que o resto da cidade, talvez só em 2022 ou 2023”. Jackson salienta a capacidade de resistência de Nova York. Há motivos para o otimismo, afirma: “Dos 450 bairros que compõem oficialmente a cidade, alguns já voltaram completamente à normalidade”.


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